Cenário 1: Um cidadão sente-se injustiçado (por inúmeras, variadas e diversas razões) e acha que merece parte da propriedade dos seus concidadãos. Este cidadão obtem uma arma, e usando a ameaça de violência, rouba parte da propriedade dos seus concidadãos. Por mais motivos nobres que este cidadão invoque, como por exemplo – que vai usar todo o produto do roubo para benefício da comunidade –  este acto não deixa de ser inequivocamente Imoral, Ilegal e Não Aceite por parte dos seus concidadãos.

Cenário 2:  Um grupo de cidadãos organizado sente-se injustiçado (por inúmeras, variadas e diversas razões) e acha que merece parte da propriedade dos seus concidadãos. Este grupo de cidadãos contrata os serviços de um gangue profissional para que este gangue, usando ameaças de violência, roube parte da propriedade dos seus concidadãos. Por mais motivos nobres que este grupo de cidadãos invoque, como por exemplo – que vai usar todo o produto do roubo para benefício da comunidade – este acto não deixa de ser inequivocamente Imoral, Ilegal e Não Aceite por parte dos seus concidadãos.

Cenário 3:  Um grupo de interesse organizado sente-se injustiçado (por inúmeras, variadas e diversas razões) e acha que merece parte da propriedade dos seus concidadãos. Este grupo faz manifestações, greves, perturba a ordem pública e a vida normal dos seus concidadãos. Este grupo de interesse organizado faz o maior alarido na comunicação social, consegue com que a intelligentsia dê eco e voz às suas reivindicações. O governo em funções cede às pressões e aceita fazer uma transferência do orçamento de estado para este grupo de interesse organizado, sendo que o orçamento de estado é obtido através da taxação coerciva dos seus cidadãos.

Questão para os leitores: em que momento é que esta apropriação de propriedade alheia levada a cabo de forma coercica e sob a ameaça de violência se torna moral, legal e aceite?

Sempre me fez muita confusão que pessoas que são incapazes de roubar um cêntimo que seja de um seu concidadão, não se coíbam minimamente em pedir e fazer pressão sobre o governo para que este o faça em seu nome (sob o nome de “impostos” e de “trânsferências do orçamento de estado“). As razões que estas pessoas organizadas em grupos de interesse invocam são sempre muito nobres e abstractas: “direitos”, “justiça” e a minha preferida- “melhorar o serviço dos utentes/clientes”. Estas pessoas sabem perfeitamente que o estado – esse intermediário anónimo e sem rosto – é o seu vizinho e o seu concidadão; sou eu e é o o caro leitor. O facto do estado ser intermediário pode dar um manto de cobertura legal, mas o acto em si não deixa de ser tão imoral como o cenário 1 acima em que o cidadão ladrão rouba os seus concidadãos com o recurso a uma arma.

Alguns leitores dirão que também existem manifestações e acções de protesto levadas a cabo no sector privado (por exemplo, na Ryanair). É verdade. A grande diferença é que a Ryanair opera num mercado livre e aberto e nunca conseguirá extorquir de forma coerciva um único cêntimo que seja do cidadão contribuinte. A única maneira de obter a propriedade alheia é vendendo bens e serviços que os clientes voluntariamente comprem porque valorizam estes bens e serviços acima dos preços praticados. O estado não opera num mercado livre e pode sempre extorquir de forma coerciva (mas sempre legal) até 100% da propriedade dos seus cidadãos – e isto, sem ter que oferecer qualquer bem ou serviço útil como contrapartida ao contribuinte. A grande diferença está pois entre a coerção e a liberdade.

João Cortez

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