Étiene de La Boétie é um daqueles nomes que facilmente se poderia ter perdido na grande história do liberalismo. Morreu relativamente novo (33 anos), escreveu relativamente pouco, e se não tivesse sido pela sua forte amizade com Michel de Montaigne (cuja tremenda reputação prestou uma certa relevância ao nome do amigo) seria fácil reduzir La Boétie seria a apenas mais um nome na longa tradição da luta do Homem contra o Estado.

A principal obra de La Boétie é o “Discurso sobre a servidão voluntária” (no francês original “Discours de la servitude volontaire” ou “Le Contr´un”), um texto relativamente pequeno que numa primeira leitura irá deixar qualquer leitor liberal pouco impressionado devido à simplicidade da mensagem, mas é exatamente aí que encontramos a sua pertinência!

Liberalismo Lá Boétie

Aquilo que La Boétie nos apresenta é estrondosamente simples: todo o poder que o Estado possui não provém da autoridade, do dinheiro ou do poder coercitivo, o verdadeiro poder do Estado é a crença! Ou posto de uma forma mais simples ainda: O Estado só tem poder porque nós acreditamos que assim o é!

Sei que isto não vai parecer uma grande revelação para muitos, mas o impacto desta afirmação é tremendo. O verdadeiro colapso do Estado não é levado a cabo por revoluções, guerras ou reformas políticas, mas sim por um movimento generalizado de não-crença, uma forma não violenta de apatia generalizada face aos supostos poderes estatais.

Lá Boétie questiona (e com toda a razão) como é que gerações de homens e mulheres sofreram abusos tremendos em nome de uma entidade que não pode nada mais do que aquilo que lhe for permitido, e a resposta é a seguinte: faz parte da natureza intrínseca do Estado criar por entre os cidadãos (nomeadamente por via das leis e regulações da economia) a sensação de colapso generalizado da sociedade “civilizada” caso se desse o fim do mesmo. De uma forma maquiavélica o Estado força-nos a jogar um jogo cujas regras foram criadas pelo próprio até ao ponto em que nós os jogadores somos incapazes de imaginar uma vida onde essas regras não se apliquem. Não é pela via da opressão que o Estado verga o cidadão, mas sim pela via do hábito, da obediência e do consentimento, consentimento esse que pode ser retirado de forma não violenta.

Pode parecer infantil, mas faz algum sentido! Todo o poder coercitivo colapsa perante a indiferença generalizada. De que serve o estado se o funcionário público não acredita nele? Que poder coercitivo é que ele tem se a polícia ou o exército não o seguir? O fim das monarquias não se deu porque os reis eram maus, mas sim porque o povo deixou de acreditar no rei, na figura da monarquia em geral. Desde que o véu místico que tornava o rei o representante de Deus na terra, o infalível, o inalcançável soberano divino e benevolente, cuja figura permanecia como a cola do tecido social,  caiu e a realeza foi posta a nu perante a humanidade podemos dizer que a monarquia acabou. O maior regicida não foi o homem, mas sim a indiferença, e será por essa mesma arma que o Estado irá cair.

P.S: Para todos os interessados aconselho que se dirijam para a livraria mais próxima (ou para a Internet, para quem é dado a essas modernidades) e comprem a edição da ANTÍGONA de “Discursos sobre a servidão voluntária” traduzido por Manuel João Gomes, para os verdadeiramente radicais há uma versão online traduzida por Harry Kurz e com uma introdução por Murray Rothbard

Luís Francisco Sousa

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