Um dia disseram-me que Portugal precisava de um avanço cultural e que isso só lá ia com mais dinheiro do Orçamento de Estado (leia-se dinheiro dos pagadores de impostos) para subsídios para a cultura. Que “avanço cultural” é esse não sei, até porque vejo aí um bom grau de subjectividade.

O que sei é que o “avanço cultural”, qualquer que seja, não necessita de concursos duvidosos onde se atribuem subsídios a artes que ninguém procura, muitas delas nem sendo “artes” no sentido clássico possivelmente. Se querem cultura, façam-se à vida e fomentem a procura, em vez de quererem mais apoios à oferta (que vêm de impostos). O que sei é que o “avanço cultural” não necessita de investimento público, pode precisar de investimento claro e aí há duas soluções: ou a pessoa começa a fazer e vende (tem receita) ou arranja investimento privado (bolsas, patrocínios, mecenas, etc.).

Tanta arte que se produziu em Itália nos Séc XV e XVI e tanto que era patrocinado por Mecenas (Miguel Ângelo e Da Vinci tiveram mecenas para dar um exemplo óbvio). Fernando Pessoa, um grande liberal nos dias sóbrios (ou talvez o inverso), é o poeta português mais conhecido do mundo e nunca recebeu um euro de financiamento estatal. A equipa olímpica dos US – a mais medalhada do mundo – só tem financiamento privado. E há muitos mais exemplos.

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Como diz o MEC, “nenhum Estado consegue ser uma Nossa Senhora do Amparo para uma tão grande multidão de necessitados”. Não só não consegue como não deve, acrescento eu. Façam-se à vida, como os outros todos que vos subsidiam, e promovam o vosso trabalho para que apareçam pessoas à procura do mesmo e a pagar por ele. E se quiserem algum tipo de incentivo justo lutem por incentivos à procura (redução de impostos a quem apoia/investe e a quem procura/paga cultura). É que já não há paciência, nem dinheiro, para a Pátria do Subsídio.

Deixo aqui uma crónica do Miguel Esteves Cardoso, presente no livro “Os Meus Problemas” de 1988, que me marcou especialmente quando a li há uns tempos. Incrível como está tudo igual ainda.

As políticas actuais são uma perversão da cultura. Fazem lembrar o salsicheiro que, para vender mais salsichas, despreza a publicidade e limita-se a abrir vinte novas fábricas de salsichas. O problema da cultura portuguesa não está na oferta, mas na procura. (…)

Se não, Portugal tornar-se-á rapidamente na Pátria do Patrocínio, sabendo-se de antemão que não há Pai para tantos. Os poucos consumidores das artes já se cansam e desanimam de ouvir tantas madalenas culturais a chorar por causa do subsídio que não veio, de tantos pobrezinhos, pintores ou cineastas, à procura de um padroeiro, e de tanta afilhadagem burocrática que usa os jornais para mostrar que está zangada com as comadres do Estado. Nenhum Estado consegue ser uma Nossa Senhora do Amparo para uma tão grande multidão de necessitados. É uma loja que começa a precisar de ser desamparada.

Bernardo Blanco

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