Mais do que propriamente fazer uma introdução às ideias e ao exemplo inspirador desta grande figura do liberalismo, acredito que faz sentido dar a palavra ao próprio Mises, através de um breve excerto da obra Acção Humana, enquanto exemplo da actualidade das suas palavras. Trata-se de uma breve adaptação da edição brasileira de Human Action, sendo que o original em inglês pode ser consultado aqui (pg. 599 do pdf).

Mises esclarece-nos sobre essa lenda omnipresente de que um regime socialista, apesar de todos os seus eventuais defeitos, é capaz de evitar a recorrência dos ciclos económicos, (supostamente) característicos das sociedades capitalistas. É importante perceber que, apesar de esta obra ter sido pela primeira vez publicada em 1949, ainda hoje encontramos manuais de História do ensino básico que apresentam o regime soviético como um exemplo da imunidade socialista à Grande Depressão dos anos 30. A este respeito, vem-me à memória a velha anedota de que “a União Soviética só teve uma recessão ao longo da sua existência: foi precisamente a última.” Mas deixemos que Mises nos fale sobre o assunto.

Human Action de Mises

A alegada ausência de depressões numa organização totalitária

Muitos autores socialistas afirmam que a recorrência de depressões e de crises económicas é um fenómeno inerente ao sistema capitalista de produção. Por outro lado, dizem eles, num sistema socialista isso não ocorreria.

Antes de mais, é essencial compreender que o que faz a crise surgir é o processo democrático de mercado. Os consumidores não aprovam a utilização que os empresários deram aos factores de produção; manifestam a sua desaprovação comprando ou deixando de comprar os seus produtos. Os empresários, seduzidos pelas ilusões de uma taxa de juro de mercado artificialmente baixa, deixaram de fazer os investimentos que melhor atenderiam às necessidades mais urgentes do público. Dessa forma, assim que termine a expansão do crédito, esses erros ficarão evidentes.

As atitudes dos consumidores forçam os empresários a ajustar novamente as suas actividades, por forma a que as necessidades gerais sejam atendidas da melhor maneira possível. Esse processo de liquidação dos erros cometidos ao longo da expansão, e de realinhamento com os desejos dos consumidores, é o que habitualmente se denomina de depressão / recessão.

Numa economia socialista, só são considerados os julgamentos de valor do governo; as pessoas não têm meios de fazer prevalecer os seus próprios julgamentos de valor. Um ditador não se preocupa em saber se as massas aprovam a sua decisão sobre quanto deve ser alocado ao consumo e quanto deve ser alocado a um investimento adicional. Se o ditador investir mais e assim restringir os meios disponíveis para consumo, o povo deve comer menos e calar a boca. Não há crise porque os indivíduos não têm oportunidade de manifestar a sua insatisfação.

Onde não há nenhuma actividade empresarial, esta não pode ser nem boa nem má. Pode haver escassez e fome, mas não depressão no sentido com que esse termo é usado na economia de mercado. Onde os indivíduos não têm liberdade de escolher, não há como protestar contra os métodos usados por aqueles que dirigem as actividades de produção.

Pedro Almeida Jorge

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