Esta semana voltamos aos clássicos: em 1945, foi pela primeira vez publicado o pequeno livro Bureaucracy (Burocracia), pelo nosso já conhecido Ludwig von Mises. Nesta curta obra, Mises tentou expor, de forma clara e concisa, os principais conflitos que nascem de uma sociedade burocrática, e como essa natureza provém da tentativa de centralizar decisões num órgão governativo.

É uma obra incrivelmente atual, nestes tempos em que os cidadãos continuam a acreditar que o Estado seria eficiente se, ao menos, deixasse de ser burocrático e alvo de corrupção. É essa a principal ideia que Mises tenta desmistificar.

Na tradução que se segue, apresento um excerto particularmente relevante para os dias de hoje: o aparecimento inevitável de “gerações perdidas” ou “à rasca”, numa sociedade dominada pelo instinto centralizador. Notável como há mais de 70 anos este pensador previu muito do que hoje em dia sentimos.

O destino das novas gerações perante uma envolvente burocrática

De certo modo, o movimento dos jovens trata-se de uma revolta impotente e frustrada contra a ameaça da burocratização. Está condenado ao fracasso pois não ataca a semente do mal, que é a actual deriva para a socialização. Na verdade, não passa de uma expressão confusa de ansiedade, sem ideias claras nem um plano definido. Os adolescentes revoltosos estão tão completamente enfeitiçados pelas ideias socialistas que, na verdade, nem sabem bem o que querem.

É evidente que a juventude é a principal vítima da deriva burocratizante. Os jovens vêem-se privados de qualquer oportunidade de moldar o seu próprio futuro. Para eles, não resta nenhuma oportunidade. São, de facto, “gerações perdidas”, pois foi-lhes roubado o mais precioso direito de qualquer geração em ascensão, o direito de contribuir com algo novo para o velho inventário da civilização. O slogan “A Humanidade atingiu o seu estado de maturidade” espelha a sua tragédia. Qual o objetivo destes jovens a quem nada resta mudar ou melhorar, cujo único propósito é começar na fileira mais baixa da ravina burocrática e escalar lentamente sob as regras formuladas pelos superiores mais velhos? Do seu ponto de vista, a burocratização significa a sujeição dos novos ao domínio dos antigos. Tudo isso acaba por revelar um retorno ao antigo sistema de castas.

Por entre todas as nações e civilizações – nas eras que precederam o florescimento do liberalismo moderno e do seu descendente, o capitalismo – a sociedade baseava-se em status. A nação dividia-se em castas. Havia as castas privilegiadas dos reis e dos nobres, e as castas subjugadas dos servos e dos escravos. Um homem nascia numa casta definida, e nela permanecia durante toda a vida até deixar esse mesmo legado aos seus filhos. Aquele que nascesse numa das castas inferiores estaria para sempre privado do direito de atingir um nível reservado aos privilegiados. O liberalismo e o capitalismo aboliram todas essas discriminações, tornando toda a gente igual perante a lei. A partir desse momento, qualquer um era livre de competir por qualquer lugar na comunidade.

O marxismo oferece uma interpretação diferente dos feitos do liberalismo. O principal dogma de Karl Marx era a doutrina do conflito irreconciliável de classes económicas. A sociedade capitalista divide-se em classes cujos interesses são antagónicos. Dessa forma, a luta de classes torna-se inevitável. Apenas desaparecerá na futura sociedade igualitária do socialismo.

O facto mais notável desta doutrina é que nunca foi explicitamente exposta. N’O Manifesto Comunista, os exemplos utilizados para demonstrar a existência de uma luta de classes baseiam-se, precisamente, num conflito entre castas. Aí, Marx acrescenta que a moderna sociedade burguesa estabeleceu novas classes. Contudo, nunca nos diz o que é afinal uma classe e o que tinha em mente quando falava dessas classes e dos seus antagonismos, nem como aquelas se comparam às castas. Todos os seus escritos se centram nestes termos nunca definidos. Apesar de infatigável na publicação de livros e artigos cheios de definições sofisticadas e minudências escolásticas, Marx nunca tentou verdadeiramente explicar numa linguagem sem ambiguidades quais eram as marcas características de uma classe económica. Quando faleceu, trinta e cinco anos após a publicação d’O Manifesto Comunista, deixou por terminar o manuscrito do terceiro volume do seu principal tratado, O Capital.

Acontece que, notavelmente, o manuscrito termina precisamente no ponto em que a explicação destas noções fundamentais na sua filosofia ia ser apresentada. Nem Marx nem qualquer um dos pertencentes à sua hoste conseguiram explicar o que, afinal, era uma classe social, muito menos ainda se tais classes sociais desempenham verdadeiramente o papel a elas prescrito na doutrina. Obviamente, de um ponto de vista meramente lógico, é permissível que se classifiquem variadas coisas de acordo com uma qualquer característica escolhida. A questão é se tal classificação, com base nas características selecionadas, se revela útil para uma investigação mais avançada e para a clarificação e amplificação do nosso conhecimento. Portanto, a questão não resume a saber se as classes de Marx realmente existem, mas sim se realmente se revelam tão determinantes quanto Marx fez crer. Acontece que Marx falhou em fornecer uma definição específica do conceito de classe social que tanto utilizou nos seus escritos, de uma forma vaga e incerta, precisamente porque tal definição revelaria a futilidade e a inutilidade de tal conceito para lidar com os problemas económicos e sociais, bem como quão absurda é a comparação com as castas sociais.

O traço mais característico de uma casta é a sua rigidez. As classes sociais, tal como Marx as exemplificava ao referir-se aos capitalistas, aos empresários e aos assalariados enquanto classes distintas, são precisamente caracterizadas pela sua flexibilidade. Há uma mudança permanente na composição das várias classes. Onde param hoje os descendentes dos empresários do tempo de Marx? O acesso aos vários níveis da sociedade capitalista moderna está aberto a toda a gente. Podemos bem chamar aos senadores americanos uma classe sem com isso ferir os princípios da lógica. Contudo, seria um erro compará-los com uma classe aristocrática hereditária, ainda que os senadores de hoje possam ser descendentes dos senadores de outrora.

Já foi realçado anteriormente que as forças anónimas operantes no mercado determinam constante e renovadamente quem deverá ser empresário e quem deverá ser capitalista. Os consumidores votam, de certo modo, em quem deve ocupar as posições determinantes da estrutura económica do País.

Agora, é verdade que num sistema socialista não existem nem empresários nem capitalistas. Nesse sentido, aquilo a que Marx chamou de classe não existirá, pelo que dessa forma acertou ao chamar ao socialismo uma sociedade sem classes. Mas isso de pouco nos consola. Haverão, por certo, outras diferenças, no que respeita às funções sociais desempenhadas, às quais poderemos chamar de classes com tanta justificação quanto a de Marx. Haverão os que emitem ordens e aqueles que estão condenados a obedecê-las incondicionalmente; haverão os que fazem planos e aqueles cujo trabalho é executar esses planos.

Aquilo que conta, na verdade, é o facto de que, no capitalismo, cada qual é o arquiteto do seu próprio destino. Um rapaz cheio de vontade de melhorar a sua situação tem de confiar na sua própria força e no seu esforço. O voto dos consumidores passa o julgamento sem olhar a personalidades. Os feitos do candidato e não a sua pessoa são o que importa. Um trabalho bem feito e um serviço bem prestado são os únicos caminhos para o sucesso.

Pelo contrário, no socialismo, o iniciante terá de agradar aos já instalados. E eles gostam pouco de novatos demasiado eficientes. (Assim como os velhos empresários não gostam de tais novidades; mas, perante a supremacia do consumidor, não têm como impedir tal concorrência.) Na máquina burocrática do socialismo, o caminho para a promoção não se baseia no mérito mas sim nos favores prestados aos superiores. A juventude depende inteiramente da boa vontade dos homens mais antigos. A nova geração está à mercê dos antiquados.

Não vale a pena negar este facto. Não há classes marxistas numa sociedade socialista. Mas há um conflito irreconciliável entre os que apoiam Estaline ou Hitler e aqueles que se recusam a fazê-lo. E trata-se de algo simplesmente humano para um ditador preferir aqueles que partilham das suas opiniões e louvam o seu trabalho àqueles que não o fazem.

Foi em vão que os fascistas italianos tenham feito de hino à juventude a sua canção de partido, assim como foi em vão que os socialistas austríacos tenham ensinado as crianças a cantar: “Somos jovens e isso não tem mal.” Não é bom ser um jovem perante uma administração burocrática. O único direito de que os jovens gozam neste sistema é o de serem dóceis, submissos e obedientes. Não há lugar para os inovadores desregrados que tenham as suas próprias ideias.

Assim, estamos perante algo maior do que uma crise da juventude. É uma crise do progresso e da civilização. A Humanidade está condenada no momento em que os jovens são privados da sua oportunidade de remodelar a sociedade à medida do seu gosto.

Pedro Almeida Jorge

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