Quando Mises escreveu o seu livro Liberalismus (1927), Liberalismo ainda significava a defesa da liberdade e da propriedade, do livre comércio, um Estado pequeno e limitado pela Lei, poderes descentralizados, etc.. No entanto, o significado da palavra Liberal foi-se alterando no EUA, sobretudo com o New Deal e, tomado por políticos intervencionistas, passou a ser sinónimo de políticas sociais-democratas. Daí que, em 1962, ano em que surgiu a versão inglesa do Livro, Mises não quis fazer uma tradução literal do título original para não haver confusões e denominou esta versão de The Free and Prosperous Commonwealth

É por este motivo que nos EUA se passou a chamar de Liberalismo Clássico ao “velho” Liberalismo, para haver uma clara distinção. Nos EUA ainda há quem chame de Liberalismo Europeu ao Liberalismo Clássico, mas o termo quase não tem uso. Os que se identificam como Liberais Clássicos nos EUA (talvez nem saibam que aí se encaixam por não conhecerem o termo) estão normalmente dentro dos conservadores ou de um grupo que vem crescendo chamado de Libertários (Libertarians). Os Liberals dos EUA são os sociais-democratas (sim meus caros, nos EUA, a esquerda é o nosso PS e PSD – nós temos um centro muito colocado à esquerda economicamente). Este facto é muito importante, até porque vários jornalistas se põe a traduzir Liberals de notícias dos EUA para Liberais em notícias em português e a confusão instala-se, dado o significado ser diferente

Na Europa, tal “apropriação” do termo Liberal pelos sociais-democratas e socialistas ainda não aconteceu, o Liberalismo Europeu, sobretudo nos países do sul, continua a ser o velho Liberalismo. No entanto, uma tendência vem aparecendo, sobretudo nos países do Norte onde Liberal já é algo mais como Liberal Social. Com a globalização de notícias, textos, etc. há cada vez mais europeus a usar o termo Liberal com o significado de Liberal nos EUA e não no sentido europeu/clássico. Há já alguns partidos pela Europa que se identificam como liberais e que são os chamados partidos liberais-sociais (um pouco menos sociais-democratas do que os partidos sociais-democratas, com as vantagens e desvantagens que isso terá em termos políticos). Há vários tipos de Liberalismo, como em todas as ideologias, e apesar das suas diferenças penso que se podem dar relativamente bem, mas daí a dizer que Liberalismo é social-democracia vai um salto gigante… e inaceitável.

Devem assim os verdadeiros liberais portugueses, inspirados em liberais como Alexandre Herculano e Fernando Pessoa, preservar o significado original (clássico) da palavra Liberal em Portugal.

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É de recordar este excerto do prefácio da edição norte-americana de 1975 de O Caminho da Servidão, obra de Hayek, aqui em versão portuguesa do Brasil:

“O fato de que este livro foi escrito com vistas apenas ao público inglês não parece ter prejudicado seriamente sua inteligibilidade pelo leitor americano. Há, porém uma questão de terminologia sobre a qual devo aqui dar uma explicação, a fim de prevenir mal-entendidos. Uso a todo momento a palavra “liberal” em seu sentido originário, do século XIX, que é ainda comumente empregado na Inglaterra. Na linguagem corrente nos Estados Unidos, seu significado é com frequência quase o oposto, pois, para camuflar-se, movimentos esquerdistas deste país, auxiliados pela confusão mental de muitos que realmente acreditam na liberdade, fizeram com que “liberal” passasse a indicar a defesa de quase todo tipo de controle governamental.

Interrogo-me ainda, perplexo, sobre a razão pela qual os que de facto crêem em liberdade neste país não só permitiram que a esquerda se apropriasse desse termo quase insubstituível, mas chegaram a colaborar nessa manobra, passando a usá-lo em sentido pejorativo. Isso é lamentável sobretudo porque daí resultou a tendência de muitos verdadeiros liberais se autodenominarem conservadores.”

Bernardo Blanco

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