Muito se tem ouvido falar da “apropriação cultural”, nome dado à adopção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Alguns têm defendido que tal prática é ilegítima e que deveria ser proibida até. Para estas pessoas se um branco usar rastas, se uma branca usar um lenço africano na cabeça, etc. é acusado de “apropriação cultural”, por exemplo. Já se uma negra como a Beyoncé alisar e pintar o cabelo de loiro é… a vida normal. Ou também será apropriação cultural ?

beyoncé apropriação cultural

O que peço aqui não é que se deva acusar os negros noutros casos também já que se acusa por exemplo os brancos nalguns casos. É exactamente o oposto.  Isto só leva a segregação e é exactamente quem – supostamente – quer acabar com a segregação que mais a promove com este tipo de comportamento.

O ponto aqui poderia ser haver certas coisas que nem se sabe bem em que cultura começaram como por exemplo as rastas. Pensa-se que começaram na Grécia, logo como é que um europeu usar rastas pode ser considerado apropriação cultural aos africanos? Havia rastas no Egipto também e até os Vikings usaram rastas. Mas o verdadeiro ponto não é esse obviamente. Ora, vejamos:

Apropriar é basicamente tornar como nosso algo que não o é. Mas uma cultura pode ser considerada propriedade? Um modo de vestir é algo exclusivamente meu? Um costume da minha casa é algo só nosso que mais ninguém pode ter? Óbvio que não. Eu não perco a minha propriedade (a minha roupa, o meu cabelo, o meu comportamento, o que seja) porque outro tem ou faz algo igual. Logo este conceito de “apropriação cultural” está errado logo no nome. É falso.

Um imposto é uma apropriação executada pelo Estado. Se me roubarem o telemóvel é uma apropriação executada pelo criminoso. Se usarem uma roupa igual à que tenho ou fizerem com o cabelo o que eu faço não é apropriação alguma!

O que defendo não é uma posição ultra progressista como a dos social justice warriors que estão a destruir os USA que defendem um multiculturalismo levado ao extremo, onde não há correcto nem errado, bem nem mal; onde o relativismo reina, onde não se pode dizer que uma cultura tem uma prática errada ao permitir a mutilação genital a mulheres ou ao considerar as mulheres como seres inferiores que devem obedecer aos homens (sim, é curioso notar que muitas vezes estes social justice warriors são ferozes feministas e pró-LGBT, mas depois defendem culturas que são claramente contra as mulheres como seres iguais e que consideram a homossexualidade um crime punido com a morte em alguns casos).

Muito menos defendo os progressistas que apoiam o multiculturalismo, mas que depois se alguma cultura se “junta” a outra ou se usar algum costume de outra é o fim do mundo. É apropriação cultural…um crime dizem eles.

O que defendo não é uma posição como alguns auto-denomiandos conservadores que querem apenas exportar a sua cultura e acabar com a dos outros. É de notar que esta vontade de exportar à força a sua cultura não é apenas característica de alguns “neoconservadores”, mas também de alguns progressistas como vemos no vídeo abaixo onde um grupo de mulheres nórdicas que quer exportar a sua ideia sobre o aborto para África leva uma valente resposta de Obianuju Ekeocha, uma activista africana pro-life que faz muito pelas mulheres em todo o mundo. Muitos liberais clássicos e libertários são a favor do aborto, e muitos são contra, a questão aqui não é essa, mas sim o facto de um grupo supostamente anti-colonização estar a tentar colonizar África de outra forma.

O que defendo é que não se tenha medo dizer que há culturas que têm práticas melhores que outras ou que levam a um maior nível de prosperidade (como culturas onde há uma maior liberdade económica e aposta no conhecimento) e que algumas têm práticas certas (como considerar errado matar ou considerar errado as mulheres e os homens não serem iguais perante a lei, por exemplo).

O que defendo é que, apesar de algumas culturas levarem a níveis de prosperidade menos altos que outras ou mais lentos, digamos assim, saibamos respeitar as outras culturas desde que elas respeitem certos direitos naturais dos indivíduos, como o direito à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei. Devemos ser tolerantes com os que o são como Popper dizia.

O que defendo é que nos possamos “apropriar” culturalmente à vontade, porque na realidade usar a roupa que outros usam, colocar o cabelo da mesma forma ou com a mesma cor, cantar e dançar em Portugal música do Brasil, Angola, Reino Unido, etc., isto é, fazer o que outros fazem não é tirar a propriedade de ninguém. Pode ser bom ou mau aos olhos de outro, mas é a decisão de cada um.

Para perceber o que defendo é ver o vídeo abaixo: uma angolana a viver no Brasil com um laço na cabeça a defender que qualquer pessoa pode usar um laço na cabeça. Algo totalmente banal no quadro da liberdade, mas que nos dias de hoje se questiona infelizmente.

Se se quer criticar quem o faz não há problema, na maioria dos países há liberdade de expressão para tal, apesar de pessoalmente achar um disparate. Se se quer proibir que as pessoas o façam, definindo o que podem ou não vestir por exemplo, há problema; é um atentado gigante à liberdade ao nível de Hitler que obrigava os judeus a vestir sempre uma peça, a famosa estrela. Por outro lado, se se quer preservar uma cultura também não há problema, desde que não se confunda preservar com impôr essa cultura à força a outros.

Bernardo Blanco

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