Um dos maiores feitos de marketing da história vem, paradoxalmente, da ideologia que mais o condena. Poucas foram as ideias que se conseguiram vender tão bem como as anti-capitalistas. Estas, por sua vez, criaram uma aura à sua volta que é, no mínimo, curiosa. O produto foi tão bem vendido que lhe cabem os mais airosos adjectivos: humanista, libertador, preocupado com o bem e com o ser humano. Já ao pensamento liberal (ou o que não se coaduna com a esquerda, no geral) cabem as mais infames descrições: desde egoísta até anti-humanista, passando por opressor ou “fascista” (o que é paradoxal, dada às semelhanças entre fascismo, nazismo e comunismo, como pode ler aqui ao comparar excertos de Marx, Hitler e Mussolini ou neste artigo sobre o Totalitarismo do Bem).

Graças a pensadores como Rousseau , o pensamento anti-liberal operou um deslocamento crasso na história da filosofia política: a expectativa de salvação passou da teologia para a politica. Jean-Jacques Rousseau consegue, através de um caminho extremamente assistemático na filosofia, mover a expectativa de “salvação pela graça” para um lugar de salvação pela politica ou pela revolução. O estado paternalista ou o movimento revolucionário passam a ser objectivo de qualquer alma que busca a redenção.

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Engraçado como o assassino revolucionário Che Guevara se tornou um símbolo aproveitado por pessoas para vender t-shirts. Acabou, na prática, como um símbolo do capitalismo

O marketing foi tão bem feito que muitas pessoas hoje perguntam: “Como é que alguém se diz liberal mas defende o capitalismo, já que o capitalismo é contra o ser humano?” ou “Como é que alguém liberal se consegue achar bondoso ou moral?”. Pode parecer um exagero ou uma espécie de delírio, mas podemos entender este processo facilmente, principalmente no lugar onde se formam os novos pensadores e formadores de opinião, a universidade. A hermenêutica marxista tem lugar privilegiado em todos os cursos de ciências humanas, sendo que o pensamento “neo-liberal” é vendido como o causador de todos os problemas que assolam o globo: desigualdade, machismo, homofobia, micro-agressões semânticas, maus tratos a ursos pandas gigantes, etc.

E por que as ideias liberais não vendem? Todos os sistemas totalitários se achavam, sem excepção, agentes do bem. E umas das maiores dificuldades do pensamento liberal é que desde a sua génese ele lida com dificuldades concretas da realidade, sem espaço para devaneios puritanos. Os primeiros autores liberais de economia (como Adam Smith ou David Ricardo) reconheciam que o que faz o padeiro entregar o melhor pão é o desejo de vencer o concorrente, é a sua ganância. A questão é: como é que um regime que parece operar em cima do interesse e do egoísmo produz melhor qualidade de vida, mais riqueza e mais liberdade, e um regime que se baseia, teoricamente, no bem comum, no colectivo e na igualdade produz miséria absoluta? A resposta é simples, está aqui, mas tem passado despercebida.

O marketing do bem que o pensamento de esquerda criou em sua volta faz com que insanidades como negar o massacre de Holodomor não sejam condenadas, ao passo que duvidar da eficiência da segurança social torna qualquer pessoa uma “egoísta” que pretende “perpetuar a pobreza”.

O problema com que o pensamento liberal se depara é profundo. A sua credibilidade foi usurpada através de mentiras e mitos, os próprios termos perderam o seu sentido (veja-se o exemplo do termo liberal nos EUA que já pouco tem que ver com o termo liberal que empregamos cá). A esquerda detém o monopólio do bem, do politicamente correto e do pensamento quase que inconsciente do colectivo. Ironicamente, o melhor marketing veio por parte de quem o repugna.

João Pinheiro da Silva

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