Nota: Artigo escrito em português do Brasil

Este artigo pretende apenas explicar o básico da TACE, a teoria austríaca dos ciclos económicos (apresentada pela primeira vez por Ludwig von Mises em The theory of Money and Credit), usada para explicar as causas das crises financeiras. Para isso é necessário entender o conceito e as consequências da inflação.

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Os bancos centrais têm práticas para manter as taxas básicas de juro ao nível que querem e que acham “adequado”. Como esse processo ocorre está fora do escopo deste artigo. O importante a saber aqui é que as taxas básicas de juro, se fossem deixadas livres, determinariam as preferências temporais dos agentes econômicos; ou seja, determinariam se há poupança ou não. Se as taxas de juro estão baixas significa que há uma abundância de crédito (poupança) e há demanda genuína para investimentos de longo prazo, que requerem muitos recursos para serem postos em prática. Assim, investimentos seriam feitos, gerariam empregos e lucros que poderiam ser mantidos de forma sustentável, já que haveria uma real poupança para ser investida e consumida.

Para ficar mais claro imagine a situação de Robinson Crusoé, que está sozinho numa ilha, sem recurso algum além dos disponíveis no local. O que ele terá de fazer? Primeiro terá de garantir sua sobrevivência. Ele irá pescar para se alimentar. Mas como não possui nenhum bem de capital que possa utilizar ele irá gastar muito tempo (recurso escasso) para conseguir peixes e pescará apenas, digamos, quatro peixes diariamente. Mas num belo dia ele resolve consumir apenas três peixes para no dia seguinte pescar apenas três (e ter quatro para consumir) e usar o tempo que sobrou para produzir uma rede (o bem de capital) para pescar mais peixes em menos tempo. Sua abstenção de consumo de um peixe num dia (o peixe que “poupou”), e o tempo que usou para produzir a rede foram um sacrifício que fez para melhorar sua situação no dia seguinte.

E isto é a poupança: uma abstenção de consumo (um sacrifício) no presente para atingir um benefício no futuro. Fazendo essa poupança, Crusoé pôde melhorar sua condição e parar de gastar o dia inteiro apenas para garantir sua sobrevivência. Agora ele possui mais tempo para adquirir mais recursos, construir mais bens de capital, e melhorar sua condição. O empreendimento feito por Crusoé foi, portanto, um sucesso. Ele calculou bem a poupança que seria necessária para poder investir tempo em construir a rede. Portanto, é a poupança que é capaz gerar investimentos que tornam as pessoas mais produtivas, melhorando seu padrão de vida.

A encrenca começa quando o Estado, através do banco central, expande o crédito e as taxas de juros caem artificialmente. Já que as taxas de juro estão baixas, aparentemente há poupança para sustentar grandes investimentos que serão feitos com a expansão de crédito. Investimentos do setor imobiliário, construção de estabelecimentos como shoppings e restaurantes são iniciados e muitos empregos são gerados. Investimentos que seriam caros antes, agora parecem baratos devido à expansão artificial de crédito, o que aumenta a renda nominal das pessoas, dando a impressão de que sua riqueza real aumentou. Haverá um aumento na demanda por trabalhadores nesses setores e, portanto, salários maiores que vão atrair muitos para trabalhar nos mesmos. Muitos irão investir tempo e dinheiro para poder entrar neles e tirar os frutos dos altos salários.

O problema é que essa demanda é artificial e não é sustentável. Como não houve poupança genuína para esses investimentos não houve uma retirada de recursos de um setor para outro; ou seja, os outros setores (como o de serviços) continuam precisando de recursos e mão de obra porque não houve uma abstenção de consumo (poupança). Assim, inicia-se uma disputa por mão de obra através de aumentos salariais. E com a expansão de crédito fica fácil aumentar os salários nominais dos indivíduos. O marcado de ações também dispara e muitos entram em bolsas animadíssimos. Tudo parece estar uma maravilha. Estão todos animados com seus altos salários e aumento de padrão de vida.

Mas chega um momento em que a farra tem de acabar. O crédito artificial inevitavelmente irá gerar distorções na economia. Ocorrerão vários maus investimentos (investimentos não sustentáveis devido à falta de poupança) que terão de ser interrompidos ou encerrados. Ou seja, haverá demissões e , na melhor das hipóteses, diminuição de salários. O mercado de ações irá sofrer uma forte queda e muitos não irão receber os dividendos que achavam que iriam. A fase do boom (expansão) acabou e chegou a hora da recessão, fase em que ocorre uma “limpeza” dos maus investimentos, ou seja, os recursos são realocados para serem utilizados de maneira eficiente. E quanto maior for o boom mais tempo irá levar para ocorrer a realocação de recursos e mais dolorosa será a recessão (o bust).

Os recursos empregados para esses investimentos foram, portanto, desperdiçados. Assim, os recursos ficam ainda mais escassos e sobra menos para se fazer investimentos produtivos. Há menos possibilidade de se fazer investimentos de longo prazo, cujos salários reais são maiores. Os empreendedores e irão se concentrar mais em fazer investimentos de curto prazo: bens de consumo imediado, essenciais (como roupas ou alimentos), etc, etc; ou concentrar-se mais no mercado financeiro, procurando ativos (geralmente de outros países) que possam ser lucrativos ou que no mínimo protejam sua renda da inflação monetária gerada pelo Estado. Ou, e isto é o pior de tudo, irão aplicar seus recursos em títulos de dívida do governo (você encontra milhares de vídeos no Youtube ensinando como ‘investir’ no tesouro direto), que só alimenta ainda mais a máquina de gastos estatal, que tem de confiscar mais o setor produtivo da sociedade para pagar os juros desses títulos; ou seja, boa parte dos poucos recursos que sobram depois do estrago feito pelo estado são usados para financiar o próprio culpado pela bagunça, restando ainda menos para se fazer investimentos produtivos.

Para ficar ainda mais claro novamente, imagine a seguinte situação: você é dono de um restaurante bem frequentado. Tudo está indo nos conformes e você consegue pagar seus funcionários e tirar uma fatia de lucro para expandir o negócio ou fazer outro investimento. Porém, na sua cidade haverá um grande evento esportivo que irá durar dois meses. Muitos turistas visitarão sua cidade e seu restaurante terá mais clientes. Você se empolga e expande a capacidade do estabelecimento, aumentando as opções do cardápio, contratando novos funcionários e comprando novos bens de capital. Um investimento grande. Mas quando o evento termina e os turistas voltam aos seus países o tamanho de sua clientela volta ao normal e todo o investimento que você fez não é mais necessário. Portanto, você terá de demitir boa parte do pessoal. Pior: todos os bens de capital que você adquiriu em função desse evento não mais necessários, simplesmente foi um desperdício de dinheiro. Ou seja, você ficou com menos recursos porque não soube avaliar bem a demanda que haveria pelo seu negócio e investiu mais do que devia.

Agora vamos supor que você faliu em função da investida e vá tentar outra coisa. Seus recursos serão, portanto, liberados para outro empreendedor que saberá como investi-los. Quando um negócio chega a falir é necessário deixar acontecer, pois os recursos têm de ser liberados para que tenham chance de serem empregados de maneira produtiva.

O problema é que quando o governo, com sua genialidade, baixa as taxas de juro e expande o crédito artificialmente ocorrem não alguns, mas muitos maus investimentos. Nesse caso a quantidade de recursos que tem de ser realocada é muito maior. E fica pior quando o governo, numa investida ainda mais genial, salva as empresas (geralmente os bancos ou grandes empresas camaradas do governo) com impostos e/ou endividamento (financiada via mais expansão monetária).
O caso dos impostos já é perverso: o governo toma boa parte da pouca quantia de recursos que podia ser usada para investimentos e salva seus amiguinhos dos bancos públicos e privados (o cartel, o clube do bolinha, garantido pelo banco central), e das grandes empresas, protegidas diretamente ou indiretamente (via regulamentações e altos impostos) pelo estado. Ou seja, o governo suga ainda mais recursos do setor produtivo da sociedade e passa para aqueles que vão novamente desperdiçá-los.
Já o caso do financiamento via endividamento é ainda mais maligno, pois será inerentemente inflacionário e, portanto, expandirá ainda mais o crédito de maneira artificial, provocando novas distorções quando a economia já está bastante distorcida e doente.

Se não houvesse um banco central garantindo o cartel dos bancos públicos e privados farras como as de expansão artificial de crédito não seriam possíveis de manter de forma generalizada. Se um banco começasse a expandir seu o crédito de forma artificial e os indivíduos percebessem que suas contas não estão devidamente lastreadas eles iriam correr para retirar seu dinheiro desse banco e pôr em um mais responsável. Mas, como qualquer cartel (sempre garantido pelo Estado, direta ou indiretamente), os bancos não têm incentivo nenhum para não praticarem reservas fracionárias e para proverem bons serviços.

Um resumo alargado da TACE

Como já referido, este artigo serve apenas para expor o básico da TACE. E para compreender melhor, recomenda-se este livro do professor Ubiratan Jorge Iorio, e o pequeno livro Economic Depressions: Their Cause and Cure, de Murray Rothbard.

André Marques


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