Corria 1789 e três palavras inspiravam uma nação: “Liberté, égalité, fraternité”. Um dos slogans mais bem sucedidos da indústria de marketing havia seduzido o indigente terceiro estado francês. A embalo das palavras de Robespierre e outros jacobinos, é protagonizado o que é vulgarmente tratado como o ícone da liberdade, da rebelião e da luta por ideais. E, a rigor, o trabalho publicitário foi impecável, não fosse o produto defeituoso. Felizmente, os jacobinos, para além de dominar o marketing e demagogia, eram exímios no que toca a cortar cabeças.

A Fé Política

Michael Oakeshott considera que há duas disposições políticas: o cepticismo politico e a fé política. Estas duas disposições transformam-se em políticas de fé ou políticas de cepticismo. Por políticas de fé, Oakeshott entende o racionalismo politico exacerbado, a “raison” tão querida aos jacobinos. Este tipo de disposição faz crer que para todo e qualquer problema existe uma única solução racional e que o ser humano é uma espécie de plasticina infinitamente moldável. É a disposição do planeamento social, da padronização da sociedade, do “novo homem” e outros embustes do género.

As políticas de fé produzem vaidade em abundância. Esta vaidade faz com que certos pensadores julguem ter resolvido todos os problemas e contrariedades do mundo a partir da sua secretária. É o pão nosso de cada dia nos cursos de filosofia ou sociologia, onde em 2 horas são teorizados todos os problemas do mundo, a razão dos mesmos, como solucioná-los e, quem sabe, reconstruir o Éden. Nada de novo! Como descrevi no início, os franceses já sabiam brincar à sociologia e à engenharia social e também acreditavam que um país inteiro tinha de caber na concepção que eles tinham de mundo. A revolução francesa é um exemplo perfeito de políticas de fé.  

Os filósofos franceses pregavam “Liberté, égalité, fraternité” sem saber o que cada uma destas palavras significava. Eram conceitos abstractos, longínquos e imprecisos. Estes direitos não eram inerentes aos indivíduos, mas assegurados pelo estado e perpetuados pela acção política. Já os filósofos ingleses advogavam direitos naturais do indivíduo, que precediam a existência do estado e deviam ser apenas protegidos pelo mesmo. Ao contrário do francês, o projecto político britânico bebe muito do empirismo filosófico e do cepticismo de Hume. Conceitos abstractos deixam de ser relevantes e a acção política passa a guiar-se pelo mundo real e não por delírios absolutistas. As políticas de cepticismo passam a imperar e a utopia deixa de ser um fetiche.

Os frutos de cada tipo de pensamento já foram colhidos. Em última análise, os jacobinos dominaram no marketing e na criação de slogans. Os ingleses, por sua vez, estão muito fraquinhos a cortar cabeças.

João Pinheiro da Silva

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