O monopólio da imundície está nas mãos dos que se julgam do bem e dos higiénicos compulsivos. Em outras palavras, o monopólio da imundície está nas mãos dos totalitários. Afinal, conhece alguém que se julgasse mais santo do que Hitler ou Mussolini?

Uma das chaves para entender este “monopólio da imundície” é perceber que, na visão do déspota, o governo totalitário não se caracteriza por perpetuar o mal a todos os seus servos. Pelo contrário, o totalitário é aquele que, julgando ter compreendido o mundo, pretende cuidar de todos os aspectos da vida dos seus escravos.

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Hitler, Estaline e Mussolini

A imaginação totalitária nasce sempre em quem se concebe santo. Graças a este fenómeno, a ciência política tornou-se uma espécie de hagiologia contemporânea, dominada pela heresia. Afinal, nada como a tradição cristã para demonstrar que quanto mais próximo alguém se julga de deus, mais afogado na vaidade o sujeito se encontra. O importante é entender que a vaidade domina todo o pequeno ditador.

Essa vaidade totalitária evidencia-se em verborreias recorrentes como “projecto de sociedade” ou “teoria de mundo”. Por trás do véu da bondade esconde-se o pensamento único e o desejo de guiar corpo social. A impressão de santidade cria em todo o ditador aspiração de higienizar o globo via lei. Tudo o que atenta ao “projecto de sociedade” deve ser vetado, e aquele que questiona a santidade do projecto censurado.

Vale a pena lembrar Michael Oakeshott, que costumava dizer que se mede a qualidade de um governante pela ausência de teorias de mundo em sua mente. O bom governante, segundo Oakeshott, entende que a política serve para manter a ordem e a livre-associação viáveis, estorvando a vida das pessoas o mínimo possível. Desta forma, a ausência da vaidade totalitária é essencial num jogo político saudável.

Para evitar o fascismo, é crucial entender que ele vem sempre mascarado como a receita fácil para o bem. Mais importante ainda, para o totalitário o indivíduo deixa de ser um fim em si mesmo. Afinal, qualquer meio serve para que o Éden seja reconstruído.

Para exemplificar, pensemos na organização estado-unidense Planned Parenthood. Criada em 1921, o movimento da “paternidade planeada” pretende “fornecer cuidados de saúde reprodutiva” financiando, por exemplo, clínicas de controlo de natalidade. Após concluir que crianças negras são mais propensas a crescer em lares conturbados, dominados pela prostituição e pelo tráfico de droga, a Planned Parenthood passou a implantar clínicas de “planeamento familiar” (eufemismo para clínicas de aborto) em bairros de negros e minorias étnicas.

O movimento recebe cerca de 528 milhões de dólares anuais através de financiamento estatal e federal. Infelizmente, a vocação totalitária da organização permaneceu inquestionada por décadas. O debate está muito além da legitimidade do aborto. Estamos perante uma organização financiada via impostos que decide quem deve ou não nascer em nome do “bem-estar das crianças”.

O objectivo escondido por trás da palrice politicamente correta da organização é o de higienizar a sociedade. A eugenia, o racismo e o totalitarismo não morreram com Hitler, pelo contrário. Limpar crianças que poderão ser problemáticas ou demasiado caras para o estado é uma realidade cruel e recente.

Não confie nos higiénicos compulsivos, muito menos em quem diz amar o mundo. A auto virtude proclamada é sempre desonesta. Suspeite dos “projectos de sociedade” e de quem se denomina santo. Afinal, o inferno está cheio de boas intenções.

João Pinheiro da Silva

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