No Livro Estratégia e Política, de Luís Todo Bom, aparece um texto de 2004 intitulado “Políticos com profissão, políticos profissionais e profissionais da política”. A mensagem do texto continua bastante actual:

“Na actividade política partidária coexistem e são especialmente relevantes estas três classes de indivíduos – Políticos com Profissão, Políticos Profissionais e Profissionais da Política, que se podem caracterizar sucintamente do seguinte modo:

Na primeira categoria, dos Políticos com Profissão, encontram-se os indivíduos com uma formação e carreira profissional autónoma, prestigiada e respeitada pelos seus pares que, sendo militantes dum partido político se disponibilizam para o exercício de cargos partidários e públicos em áreas da sua competência. Incluem-se neste conjunto, gestores, advogados, médicos, etc., com curriculum académico e profissional reconhecido nestes domínios e que, por razões de coerência ideológica e noção de serviço público integram a actividade política activa em determinados períodos da sua vida profissional, na maior parte dos casos com prejuízos materiais significativos já que auferem na sua actividade profissional fora da área pública valores significativamente superiores.

Na segunda categoria, dos Políticos Profissionais, encontram-se os indivíduos que decidem construir uma carreira competente, dedicada e estruturada no âmbito da actividade política. Para tal, adquirem uma formação académica de base adequada, nos domínios sociais e políticos, melhoram permanentemente os seus conhecimentos intelectuais em áreas complementares, nos domínios da economia, relações internacionais, etc. e estruturam uma carreira profissional pública, nacional e internacional na área política. Tornam-se assim dirigentes políticos partidários e nacionais competentes, muito bem preparados tecnicamente e capazes de exercerem a actividade política com os mais elevados padrões de qualidade e eficiência.

Na terceira categoria, dos Profissionais da Política, encontram-se os indivíduos que vivem da actividade política partidária, e que por conseguinte dependem em termos profissionais da situação em que o partido se encontra e do seu próprio posicionamento dentro do partido. São «partido-dependentes» tendo sido, recentemente, apelidados de «boys» ou «indivíduos do aparelho».São fundamentais para manterem em funcionamento as «máquinas» ou «aparelhos» partidários – Comissões Políticas Nacionais, Distritais, Concelhias, Secções Locais, Secções Profissionais, etc. e para a mobilização em campanhas eleitorais, sendo posteriormente recompensados com a atribuição de lugares públicos quando o partido assume o poder. Têm normalmente uma formação académica fraca e um curriculum profissional insuficiente e raramente obtêm o reconhecimento dos seus pares ou da comunidade empregadora privada, pelo que auferem normalmente rendimentos mais elevados quando o seu partido exerce o poder.

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Em todos os partidos democráticos ocidentais para além de milhares de militantes anónimos, generosos e desinteressados coexistem, dum modo equilibrado, estes três tipos de categorias que, em certa medida, executam funções e tarefas distintas, pelo que o nosso país não é excepção. A situação particular dos partidos portugueses que lideram o exercício do poder apresenta, no entanto, três aspectos pouco saudáveis.

O primeiro reside no «mix» destas três categorias com uma grande predominância dos elementos da classe dos Profissionais da Política em relação aos restantes. A diminuição, a prazo da qualidade intelectual e técnica da actividade política será, assim, inevitável. O segundo reside na confusão entre a primeira e a terceira categoria nas nomeações governamentais para lugares de direcção e chefia de entidades públicas. Só se trata da nomeação de um «boy» quando provém da terceira categoria, ou seja, quando se trata de um indivíduo sem qualificações académicas e curriculum profissional adequado para o exercício dos lugares em causa.

Aliás existem dois testes simples para distinguir um Político com Profissão dum Profissional da Política. O primeiro, o «acid test» consiste em verificar a diferença de posição profissional em termos de estatuto, hierarquia e rendimento nos períodos em que o partido está no poder em comparação com os restantes, situação em que só os Profissionais da Política têm ganhos consideráveis. O segundo teste tem lugar quando se ouve um gestor público afirmar que para gerir uma empresa só é necessário ter bom senso e bons directores. Só os «boys» fazem esta afirmação ignorando o desprezo que os directores competentes sentem por este tipo de pessoas.

Finalmente e como corolário das duas preocupações anteriores, verifica-se um afastamento cada vez maior da actividade política activa dos Políticos com Profissão e há cada vez menos indivíduos disponíveis para trilharem a carreira nobre de Políticos Profissionais. Se esta tendência se mantiver, se continuarmos a desistir da actividade política séria e construtiva e se os movimentos de regeneração que surgiram recentemente se limitarem a organizar conferências e colóquios, a degradação da qualidade da nossa vida política será inevitável, e, como consequência directa, a degradação da vida económica e social do país. E é pena, porque não tinha de ser assim.”

João Pedro Almeida

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