A Economia tornou-se desde cedo na paixão de Ludwig von Mises, sendo que os trágicos acontecimentos da primeira metade do século passado, bem como as negras tendências que os mesmos revelavam, o levaram a dedicar a sua vida e as suas capacidades à promoção de uma sociedade livre, baseada no comércio voluntário e na propriedade privada.

A sua vida foi repleta de escolhas difíceis, as quais encarou com uma persistência e determinação que muitos admiraram e outros criticaram. Em diversas ocasiões, a sua recusa em ceder às novas tendências da ciência que sempre amou levou a que fosse marginalizado pelo meio académico e pela profissão em geral.

Ainda hoje, tal como acontece em certa medida com Hayek, é comum que o seu nome seja referido num variado leque de disciplinas e de publicações que não se assumem de cariz económico, no sentido puro da disciplina. Por outro lado, são muito raros os papers publicados no âmbito de estudos mais diretamente ligados à ciência económica que referem o nome de Mises, especialmente no caso das revistas mais conceituadas ou de publicações de bancos centrais/organizações financeiras internacionais.

Ora, não é incomum acontecer que, quando confrontados com esse facto, cujas razões não vamos agora explorar, certos economistas que, efetivamente, conhecem o nome de Mises (são menos do que o leitor imagina) e em certa medida até partilham algumas das conclusões da sua obra (quando as mesmas acabam por coincidir com os preceitos económicos mais ortodoxos), não é incomum que tais economistas apresentem como argumento que “na verdade, Mises era um filósofo, não um economista.”

Acredito que, para os efeitos deste post, não vale a pena referir nomes nem, como disse acima, entrar em especulações quanto à razão deste valente absurdo (vão notar que comecei a ficar chateado)

Antes de lançar um desafio, acho contudo importante citar ambos os pensadores que acima referi. Primeiro Hayek:
“Unless you really know your economics or whatever your special field is, you will be simply a fraud. But if you know economics and nothing else, you will be a bane to mankind, good, perhaps, for writing articles for other economists to read, but for nothing else.”

 Depois, o próprio Mises:
“The early economists devoted themselves to the study of the problems of economics. In lecturing and writing books they were eager to communicate to their fellow citizens the results of their thinking. They tried to influence public opinion in order to make sound policies prevail in the conduct of civic affairs. They never conceived of economics as a profession.

The development of a profession of economists is an offshoot of interventionism. The professional economist is the specialist who is instrumental in designing various measures of government interference with business. He is an expert in the field of economic legislation, which today invariably aims at hindering the operation of the market economy.”

Hayek e Mises

Penso que estas duas citações bastarão para passar a ideia de qual era a abordagem de ambos estes senhores àquilo que devia ser a tarefa e o espectro de ação de um economista, o que serve também para explicar a abrangência disciplinar de ambos.
Vamos, então, ao desafio.

Lanço aqui o repto de me referirem um economista que, sozinho, tenha produzido obras tão avassaladoras e groundbreaking como The Theory of Money and Credit, Human Action e Socialism (especialmente no que coincide com o tema de Economic Calculation in the Socialist Commonwealth). Isto sem referir as suas outras obras mais “populares” ou dedicadas efetivamente a temas mais filosóficos como Theory and History e Ultimate Foundation of Economic Science. E sem referir todos os seus artigos e textos sobre a insustentabilidade do intervencionismo, do ponto de vista económico.
Sendo eu um verdadeiro adepto da história do pensamento económico, tenho mesmo interesse em saber de um economista que tenha deixado um legado a este nível. Porque, se ainda assim me disserem que Mises não era economista, então digo eu “que se dane a economia! sejamos filósofos!”

É importante lembrar que este senhor trouxe para a discussão económica a origem do papel fiduciário (regression theorem), a teoria do capital e da moeda enquanto chave para o entendimento dos ciclos económicos (que valeu posteriormente o Nobel a Hayek), a importância do cálculo económico e da contabilidade (ver Chambers) para o funcionamento de uma ordem social baseada na divisão de trabalho, o conceito de mercado enquanto processo (ver Kirzner e Lachmann), e a integração da lógica da ação humana enquanto motivadora desse mesmo fenómeno a que chamamos mercado.
Sendo eu licenciado em Economia numa das, supostamente, mais reputadas faculdades do País, posso dizer-vos que nenhum destes temas fulcrais foi aprofundadamente desenvolvido nas aulas a que assisti (em alguns casos, estes temas não foram simplesmente referidos). Mais uma vez, se ser economista é achar que as questões acima relevadas não têm um interesse fundamental para a profissão, volto a reiterar: que se danem então os economistas.

Penso que é óbvio que não quero com isto dizer que Mises foi perfeito na sua abordagem e nas suas conclusões. É defensável que algumas arestas tenham de ser limadas (algumas delas assumindo mesmo uma importância fulcral em todo o enquadramento das suas conclusões). Mas isso é levar a conversa para águas que a maior parte dos economistas que criticam ou desvalorizam Mises nem chegam a navegar (no sentido de não ser aí que se baseiam para tal crítica ou desvalorização, pois que qualquer economista imperfeito deixaria então de ser como tal considerado).
O que importa reter é que a maior parte dos economistas do século passado, e especialmente os ainda vivos neste século, teriam de lavar muito bem as mãos para chegar sequer a cumprimentar Mises de igual para igual, no que respeita aos contributos e às questões que trouxeram à disciplina.

Pedro Almeida Jorge

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