Num de seus mais belos poemas, Fernando Pessoa descreve o homem como um “cadáver adiado”. Para além de uma dimensão lírica, a afirmação carrega uma verdade indubitável, cuja obviedade nos desespera. Tal descrição é arrebatadora, não por ser uma extravagância poética, mas por se reiterar continuamente ao longo da nossa existência. Para onde quer que olhemos, a morte espreita.

Ainda que o convívio com a morte seja permanente, teimamos em tratá-la como forasteira. Então, se o fim é uma certeza, porque nos comportamos como covardes diante dele? A resposta é simples: a consciência da morte é avassaladora. Num passado remoto da nossa espécie, alguns que tomaram consciência da mesma paralisaram, não reproduziram e morreram. Só sobreviveu aquele cujo intelecto reprimiu, de alguma forma, esta devastadora percepção.

O ser humano entendeu a tragédia bem antes de descobrir a roda. O trágico fundou a civilização.

Entendo, desta forma, uma tragédia cultivadora de virtudes, que ergue o homem para enfrentar aquilo que o destrói e não como um culto ao sofrimento. Ao conceber o ser humano como um “cadáver adiado” a cultura trágica desconfia daqueles que se acham perfeitos em potencial, capazes de gerar felicidade eterna e, em suma, imortais.

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Como remédio para essa neurose antropológica, os séculos XVI e XVII produziram as Vanitas, a expressão da “vaidade”. A arte passou a ser dominada por caveiras, fruta apodrecida e fumaça, símbolos futilidade humana e da certeza da morte. Olhar a Vanitas deveria fazer o ufano lembrar-se da sua insignificância, da sua finitude. Segundo a tradição medieval, seria a expressão artística do versículo de Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Já na Grécia Antiga, tornou-se famosa a máxima que Platão tantas vezes enuncia do Oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Talvez por covardia, o restante da citação nunca é mencionado… Este dita: “E saibas que és mortal”. A mensagem é simples: o verdadeiro autoconhecimento passa por reconhecer que somos apenas um “punhado de pó”.

Na monumental “A origem da Tragédia”, Nietzsche responsabiliza o reconhecimento popular grego da trágica verdade de Sileno pelo esplendor cultural vivido na Grécia. Por outro lado, o autor considera que o rompimento com tragédia clássica foi o principal responsável pelo deterioramento da cultura helénica.

Porquê? Culturas que abandonam a tragédia, renunciam ao auto-conhecimento e, em ultima instância, a si mesmas. Qualquer sistema filosófico, político ou social que não parta de uma analise antropológica pessimista esta fadado à calamidade. Os que desprezam esta análise tendem a pensar num mundo ilimitado, onde recursos infinitos amamentam o “novo homem”, livre dos fantasmas do passado, altruísta e reinado pela “consciência colectiva”.

Infelizmente, o mundo pouco se importa com as abstracções de “teóricos de gabinete”. Inundados em idealismos, tais teóricos dizem-se humanistas, crendo numa ideia de ser humano que não existe. Na verdade, apenas a tragédia é humanista. O principal objectivo do teatro grego era mostrar o homem tal como ele é, e não como achamos que ele deveria ser. A incessante luta com o destino, o mundo exterior que nos domina (seja a natureza, a pólis ou a própria convivência social), a insustentabilidade do desejo e o constante relembrar da nossa imperfeição. Somos impotentes, pequenos e só o reconhecimento do trágico nos liberta.

Ao assimilar este pessimismo antropológico, a tradição eleva-se. A sabedoria, a ordem e as instituições legadas pelo nossos patriarcas tornam-se objetos de gratidão. Deparados com um mundo dominado pelo absurdo e pela entropia, os nossos ancestrais arrancaram sentido das pedras, gerando uma sociedade que funciona razoavelmente bem (luxo raro e caríssimo), dominada pelo avanço técnico e que cria conforto em larga escala.

A apreensão quanto ao espírito revolucionário não é fruto de uma mentalidade reaccionária, mas da consciência de que somos um “cadáver adiado” que se digladiou para construir um mundo onde a tragédia se sente menos. Rejeitar a utopia não é perpetuar o sofrimento, é prevenir o coma.

João Pinheiro da Silva

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