Alega-se que adentramos uma nova era intelectual. Somos pós-modernos agora. O mundo das ideias parece ter sucumbido a Michel Foucault e Jacques Derrida. Desencantada com as “opressões” geradas pela sociedade pós-industrial, a vanguarda pós-moderna propõe-se a investigar as estruturas sócio-linguísticas que originam os terrores ocidentais. Com isto, nada está a salvo do escrutínio.

Segundo os próprios, o pós-modernismo é “uma estratégia ativista contra a coalização da razão e do poder”. Desta forma, a proposta pós-moderna consiste em “exercer o poder tendo em vista a mudança social”. Já que foi na civilização ocidental que a razão e o poder floresceram, a batalha travada é, em ultima estância, contra o ocidente.
O maior fetiche destes pensadores gálios sempre foi a “desconstrução”. Foucault, por exemplo, dedica a sua obra a “desconstruir” a razão, a verdade e a ideia de que existe uma correspondencia entre pensamento e realidade. Nas palavras de Stanley Fish, a desconstrução “liberta-me da obrigação de ser correto… e exige apenas que eu seja interessante.”​

Infelizmente, os pós-modernistas parecem ter mais interesse na política do que na estética (entenda-se política por extrema esquerda). O pós-modernismo casou perfeitamente com o marxismo, ajudando-o a renascer após o fiasco do “socialismo real”.

Porém, as duas teorias parecem incongruentes em vários aspetos. O marxismo ortodoxo diz-se cientifico, os pós-modernos tem aversão à ciência. O marxismo ortodoxo prega a racionalidade, os pós-modernos pretendem “desconstruí-la”. Sabendo que os comunistas ancestrais preconizavam a produção para a pátria, os pós-modernos preferem “reduzir, reciclar e reutilizar”. Quanto ao extermínio de burgueses, só seria tolerável num gulag sustentável.

Contudo, como em qualquer bom casamento, as desavenças são superadas. Nas palavras de Jacques Derrida: “A desconstrução só tem sentido ou interesse, pelo menos a meu ver, como radicalização, isto é, também na tradição de um certo marxismo, em um certo espírito do marxismo.” Resumindo, o ódio ao capitalismo e a sede de revolução superam qualquer discórdia.

A “guerra” entre burgueses e proletários expandiu-se e o belicismo social tornou-se omnipresente: brancos contra negros, homens contra mulheres, gays contra héteros, gordos contra magros (não estou a gozar), etc. O empenho pós-moderno em demonstrar que todo o cosmos é uma construção social criou nesta gente o ímpeto de desconstruir tudo e mais alguma coisa.

Este ímpeto criou uma nova forma de revolução. Em vez de destruir o capitalismo, esta revolução pretende desmantelar as estruturas onde assentam todas as construções civilizacionais: desde a filosofia à ciência. A guerra deixou de ser contra a classe burguesa, passando a buscar a destruição de conceitos simples mas fulcrais.

Ao “desconstruir” a verdade, o conhecimento e o poder, os pós-modernos pretendem danificar as bases da ciência, da filosofia e do próprio capitalismo. Infelizmente, a esquerda pós-moderna é insolitamente mais nociva que a esquerda marxista.

João Pinheiro da Silva

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