De seguida o básico sobre os problemas do Socialismo explicado por quatro grandes autores liberais da Escola Austríaca de Economia.

Imagem em português do Brasil
Fonte: Clube Miss Rand

Ludwig von Mises

Bem antes de Mises atacar as bases teóricas do socialismo, socialistas e não-socialistas já tinham percebido que o socialismo sofria de um grave problema de incentivos.

Se, por exemplo, todos os indivíduos num sistema socialista recebessem o mesmo rendimento — ou se todos fossem produzir “de acordo com suas capacidades”, mas recebessem “de acordo com suas necessidades” como o socialismo prega — então, parodiando aquela famosa pergunta: quem, no socialismo, fará o trabalho de recolher o lixo?  Ou seja, qual será o incentivo para se efectuar os trabalhos sujos?  Mais ainda, quem fará esses trabalhos?  Ainda pior: qual será o incentivo para se trabalhar duro e ser produtivo em qualquer emprego?

No entanto, a singularidade e a crucial importância do desafio lançado por Mises aos defensores do socialismo é que o seu argumento estava totalmente dissociado desse problema do incentivo. Mises, com efeito, disse: muito bem, vamos supor que os socialistas foram capazes de criar um poderoso exército de cidadãos genuinamente ávidos para seguir todas as ordens de seus mestres socialistas que tudo centralmente planeavam.

Fica a pergunta: o que é que exactamente estes mestres socialistas mandariam esse exército fazer?  Como é que eles saberiam quais os produtos que estes seus escravos deveriam produzir?  Em que etapa da cadeia produtiva cada exército deveria trabalhar?  Quanto de cada produto deve ser produzido em cada etapa da cadeia de produção?  Quais técnicas ou quais matérias-primas devem ser utilizadas na produção como um todo?  Qual a quantidade de matérias-primas a ser utilizada?  Onde especificamente fazer toda essa produção?  Como é que eles saberiam os seus custos operacionais ou qual o processo de produção é mais eficiente?

O comitê de planeamento central não tinha como responder a estas perguntas, porque o socialismo não dispõe daquela indispensável ferramenta que só existe numa economia de mercado, a qual empreendedores utilizam para fazer cálculos e estimativas: a existência de preços livremente definidos no mercado.

Mises atentou para o facto de que sem propriedade privada dos meios de produção não há como estabelecer preços no mercado.  Se os meios de produção (fábricas, máquinas e ferramentas) não possuem proprietários definidos (eles pertencem ao Estado), então não há um genuíno mercado entre eles.  Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços.  Se não há formação de preços, não há cálculo de lucros e prejuízos e, consequentemente, não há como direccionar o uso de bens de capital para atender às mais urgentes procuras dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível.

Sem preços livres, e sem poder fazer cálculo de custos, é impossível haver qualquer racionalidade económica, o que significa que uma economia centralmente planeaada é, paradoxalmente, impossível de ser planeada.

Sendo assim, as decisões do comitê central socialista necessariamente teriam de ser completamente arbitrárias e caóticas.  Caso seja aplicado, o socialismo resultará invariavelmente numa irracional alocação de recursos na economia devido ao estabelecimento artificial e arbitrário de preços pela autoridade governamental, culminando em escassez generalizada de bens.

Consequentemente, a existência de uma economia socialista planeada é literalmente “impossível” (para utilizar um termo que foi muito ridicularizado pelos críticos de Mises).

Friedrich Hayek

Por sua vez, o prémio Nobel em economia Friedrich Hayek demonstrou que, no mundo real, a informação está dispersa entre uma imensidão de indivíduos. 

Por isso, somente os indivíduos que possuem esses fragmentos de informação podem estabelecer uma ordem de mercado espontânea e descentralizada capaz de satisfazer as procuras existentes de maneira eficaz, criando um sistema de preços que coordena as acções individuais das pessoas na sociedade.

Por exemplo, apenas o proprietário de uma fábrica na terra X pode saber de detalhes muito específicos sobre as máquinas da sua linha de produção; é impossível que os “planeadores” centrais na terra Y tenham esse mesmo conhecimento.  É impossível que estes “planeadores” socialistas na terra Y tenham como levar em conta esses detalhes conhecidos apenas pelo proprietário da linha de produção.

E é impossível que, não sabendo destes detalhes, eles possam planear “eficientemente” a economia, direccionando, por meio de decretos, os recursos e os factores de produção do país para as finalidades que julgam ser as mais desejadas.

Tentar estabelecer um planeamento central económico seria não só uma atitude presunçosa, mas extremamente danosa à sociedade, pois impossibilitaria que aqueles que possuem de facto as informações fizessem o melhor uso das mesmas.

Hayek argumentou também que o sistema de preços numa economia de mercado pode ser visto como um gigante “sistema de telecomunicações”, o qual rapidamente transmite os fragmentos essenciais do conhecimento de um ponto localizado até outro.  Tal arranjo de “rede” só funciona bem se não for obstaculizado por uma hierarquia burocrática, através da qual cada fragmento de informação teria de fluir até o topo da cadeia de comando, ser processado pelos planeadores centrais, e então fluir de volta até os subordinados.

Por tudo isso, é impossível que o órgão planeador socialista encarregado de exercer a coerção para coordenar a sociedade obtenha todas as informações de que necessita para fornecer um conteúdo coordenador às suas ordens.  O planeador da economia teria de receber um fluxo ininterrupto e crescente de informação, de conhecimento e de dados para que o seu impacto coercivo — a organização da sociedade — obtivesse algum êxito.  

Só que é obviamente impossível uma mente ou mesmo várias mentes obterem e processarem todas as infinitas informações que estão dispersas na economia. As interacções diárias entre milhões de indivíduos produzem uma multiplicidade de informações que são impossíveis de serem apreendidas e processadas por apenas um selecto grupo de seres humanos.

Socialismo não funciona - Roberto Campos

Eugen von Böhm-Bawerk

Böhm-Bawerk foi quem, antes de todos, refutou a famosa mais-valia e todas as demais teorias da exploração que os socialistas tanto gostam de citar. 

O capitalista remunera o trabalhador com 100 euros, esse trabalhador gera mercadorias e essas mercadorias são vendidas por 120 euros. Segundo Marx, esse lucro de 20 euros só foi possível de ocorrer porque houve uma parte do trabalho que não foi remunerada pelo capitalista.

Essa diferença seria justamente a mais-valia, que é a mensuração exacta da “exploração da mão-de-obra do trabalhar” segundo Marx — ou seja, o trabalhador prestou um serviço para o capitalista e não obteve a devida remuneração.

O que há de errado com essa teoria da exploração de Marx é que ele não compreende o fenómeno da preferência temporal, explicado por Böhm-Bawerk.

O leitor realmente acredita que ter 1.000 euros hoje é o mesmo que ter 1.000 euros apenas daqui a 5 anos (e assumindo zero de inflação de preços), mesmo que ambos os valores contenham o mesmo tempo de trabalho? Claro que não. Pois, é exactamente esse o raciocínio por trás de toda a análise marxista da exploração.

Os capitalistas (entenda-se os empresários) adiantam bens presentes (salários) aos trabalhadores em troca de receber — somente quando o processo de produção estiver finalizado — bens futuros (lucros). Existe necessariamente uma diferença de valor entre os bens presentes dos quais os capitalistas abrem mão (seu capital investido na forma de salários, máquinas e outros custos) e os bens futuros que eles receberão (se é que receberão, podem não conseguir vender).

Os capitalistas, ao adiantarem o seu capital e a sua poupança para todos os seus factores de produção (pagando os salários da mão-de-obra e comprando máquinas, entre outros), esperam ser remunerados pelo tempo de espera e pelo risco assumido. Por outro lado, os trabalhadores, ao receberem seu salário no presente, estão trocando a incerteza do futuro pelo conforto da certeza do presente.

Os trabalhadores que os capitalistas empregam não precisam de esperar até que os bens sejam produzidos e realmente vendidos para receberem os seus salários.  O empregador “adianta” aos trabalhadores o valor de seus serviços enquanto o processo de produção ainda está em andamento, precisamente para aliviar seus empregados de terem de esperar até que as receitas da venda dos produtos aos consumidores sejam recebidas no futuro.

O fato de o trabalhador não receber o “valor total” da produção futura simplesmente reflecte o facto de que é impossível o homem trocar bens futuros por bens presentes sem que haja um desconto no valor. O pagamento salarial representa bens presentes, ao passo que os serviços de sua mão-de-obra representam apenas bens futuros.

A relação trabalhista, portanto, é apenas uma relação de troca entre bens presentes (o capital e a poupança do capitalista) por bens futuros (bens que serão produzidos pelos trabalhadores e pelas máquinas utilizadas, mas que só estarão disponíveis no futuro).

Sem o empreendedor e o capitalista para organizar, financiar e dirigir o empreendimento, os seus empregados não teriam trabalho e nem receberiam salários antes que um único produto fosse fabricado e vendido.

Carl Menger

Menger foi o principal fundador da Escola Austríaca de economia, à qual pertenciam os outros três economistas anteriores.  Ele foi o primeiro a demonstrar que o valor de qualquer bem ou serviço é subjetivo, o que levou à revolução marginalista na economia, resolvendo o paradoxo da água e do diamante e aposentando a teoria clássica do valor-trabalho.

Marx dizia que o valor de uma mercadoria depende directamente da quantidade total de trabalho utilizada em sua produção. Segundo esta lógica, se a quantidade de trabalho exigida para a construção de uma bicicleta for a mesma exigida para a fabricação de um bolo, então o valor de mercado da bicicleta será o mesmo que o do bolo.

Já Menger explicou que o valor de um bem não deriva da quantidade de trabalho despendida em sua fabricação. Um homem pode gastar centenas de horas fazendo gelados de lama, mas se ninguém atribuir qualquer valor a estes gelados de lama — e, portanto, não os valorizar o suficiente para pagar alguma coisa por eles — então tais produtos não têm valor, não obstante as centenas de horas gastas na sua produção.

Assim como a beleza, o valor — como diz o velho provérbio — está nos olhos de quem vê. O valor de um bem é subjetivo: depende do uso e do grau de importância pessoal (subjetiva) que alguém confere a esse bem (seja ele uma mercadoria ou um serviço). Basta pensar no caso da Arte ( quanto vale um quadro ? ). Se o bem servir para algum fim ou propósito, então terá valor para pelo menos uma pessoa.

Nenhum objecto, seja uma banana ou um automóvel, possui um valor económico intrínseco.  Ao contrário: apenas uma mente humana pode atribuir valor a estes itens; e somente então podem os economistas classificar estes itens como sendo bens.  Um objecto só é valioso se houver pelo menos um ser humano que acredite que este objecto poderá ajudar a satisfazer seus desejos subjectivos. 

Por exemplo, uma determinada raiz que cure o cancro.  Se ninguém souber deste facto, esta raiz não terá valor económico, e as pessoas não trocarão dinheiro por ela.  Consequentemente, o valor é gerado pelos desejos subjectivos de um indivíduo e pelas suas crenças quanto às propriedades de um determinado item.

Portanto, e ao contrário do que diz a teoria marxista, bens e serviços não têm valor por causa da “quantidade de trabalho” consumida na sua produção. Já uma determinada habilidade de trabalho pode ter grande valor caso se considerada útil (como um meio produtivo) para se alcançar um objectivo que alguém tem em mente.

Consta que Menger teria enviado sua obra para Marx, que então teria desistido de publicar os volumes seguintes de O Capital, visto que toda a base de sua teoria havia desmoronado com a revelação da verdadeira origem do valor.

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